Princípio

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Poema de Raul Bopp



No princípio era sol sol sol.
O Amazonas ainda não estava pronto.
As águas atrasadas
derramavam-se em desordem pelo mato.

O rio bebia a floresta.

Depois veio a Cobra Grande. Amassou a terra elástica
e pediu pra chamar sono.
As árvores enfastiadas de sol combinaram silêncio.
A floresta imensa chocando um ovo!

Cobra Grande teve uma filha. Ficou moça.
Um dia
ela disse que queria conhecer homem.
Mas não encontraram rasto de homem.

Então
começaram a adivinhar horizontes
e mandaram buscar de muito longe um moço.

Ai! que houve festa na floresta!

Mas a filha da Cobra Grande não queria dormir com o noivo
porque naquele tempo não havia noite.
A noite estava escondida atrás da selva
dentro de um caroço de tucumã.
                 - Ah! então vamos buscar o tucumã
                 pra dar de presente de casamento.

Veio o Sapo. Jabuti veio também.
O Cameleão estava esperando sono.
A Onça não pôde vir porque tinha emprestado os sapatos.

Andaram. Andaram.

As vozes iam na frente procurando caminho.

Desembarcavam árvores. Raízes furavam a lama.
A floresta crescia.

Chô que depois de muito andar chegaram.

- Esta é que é a noite?
- Será mesmo a noite?
- Ah! não acredito.

Então vamos espiar o que tem dentro.

Quando abriram o caroço
houve um estouro imenso
que cobriu tudo de escuro.

A floresta inchou.
Árvores saíram correndo.
Um pedaço da noite entrou na barriga do Sapo.

Então
a filha da Cobra Grande pôde fazer dormezinho com o noivo.




Fonte: "Poesia completa de Raul Bopp", José Olympio Editora, 2014.
Originalmente publicado em: "Poesias", Orell  Füssli,  1947.