Os retratos
Poema de Myriam Fraga
I
Na matemática severa
Das imagens,
Em retângulo brilhante,
A face,
Preservada.
Aqui o tempo é um esmalte claro,
E o traço outrora impreciso
É perfeito e mineral.
Somente extinta aparência
Vislumbrada além do morto
Com minha face
Nos retratos.
II
Precisão de esquadro,
Olho de lente,
Nítido traço.
Sobre a superfície
A linha traçada.
E a face polida
Apenas instante,
Entre a exata pausa
E o tempo
recomeçado.
III
Em luz e sombra agora
A contemplada
Face de antigamente,
Exata e rara.
Tudo o que foi
Aqui está enterrado.
Em branco-e-preto
A soma revelada
Do que outrora foi vida
E hoje é distância.
IV
Preso num só movimento
Pela rede de seus ácidos,
Colado em fotografia
O corpo,
Animal estático.
Pela rede de seus ácidos,
Colado em fotografia
O corpo,
Animal estático.
Folha esmagada
Na página,
Vegetal branco,
trilobite,
Vírus dormindo apagado
Em sua lâmina de vidro.
Fonte: "Poesia reunida", Oiti, 2021.
Originalmente publicado em: "O risco na pele", Civilização Brasileira, 1979.