Bruxo

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Poema de Raul Bopp



Longe
léguas adentro o Brasil parou.
Parou a estrada.

O homem pôs-se a decifrar a floresta.
Deus ficou lá em cima recolhendo os silêncios.

Curandeiro tomou diamba.
Fez cosquinha de chamar sono
e virou bruxo.

Estendeu a alma do lado de fora.
Veio o gato e comeu.

- Ai me-leva! O rio crescia.
Ficou só uma canoinha.
- O vira-sebo te come!

Chegavam árvores e mais árvores,
uma delas de raízes imensas,
mastigando o Brasil.

Vieram depois outros homens.
Mandaram buscar o metro para medir a paisagem.
Cobra Grande deu um peido: fiúm.
Arvorezinha secou.

Trovão tossiu feio.
Tartaruga pôs a cabeça do lado de fora,
ver se vinha chuva.

- Ai me leva que está escuro.

Bruxo esfregou os olhos.
Floresta estava com fome
Formiga virou cipó.
Vento assobiou. Curupira passou.
Cortou um pedaço da perna.
A carne começou a gritar na barriga.

Canoinha piquininha
desfiou-se na fumaça.
Fumaça virou fumacinha.

Ficou só o olho do bruxo,
inchado,
enorme,
crescendo.

Quando a sombra chegou
as árvores tinham fugido.

Então a noite dissolveu sono
e meteu a floresta num saco.




Fonte: "Poesia completa de Raul Bopp", José Olympio Editora, 2014.
Originalmente publicado em: "Poesias", Orell Füssli, 1947.