175. Sucuri


Poema de crroma



Uma manhã
sucuri foi morar na rede de esgoto

Chegou sibilante rastejando rastejando
nas águas escuras fez de aguapés seus cabelos

Contente
enrodilhou-se nas raízes de uma Vitória-Régia
para conversas de como se transformar em estrela
por lunar feitiço de Jaci

Mandaram chamar os bombeiros
com apoio do preservador de serpentes Zé Batista
- Salvem a sucuri
do erro de estar entre dejetos!

Passava só um fiozinho de sol
pelos miolos de pão do celeste nublado

Corrupião lá longe
alaranjava uma melodia

Perto da margem puxaram
a sucuri pelo rabo
Mas em descanso a cobra não queria ter fim
seu corpo cilíndrico se encompridava por quilômetros

A chusma de cerrado
que pelos barrancos resistia
espantou-se com o esforço dos inúmeros braços

Cagaiteira até derrubou os frutos

- Arreda da grama, carrapato,
que a sucuri evém!

Ela ia acumulando nervura
se aprontava a engoli-los num bote
enquanto os homens procuravam procuravam

Uma chispa do pinção
e das águas Zé Batista ergueu cativa
a cabeça da sucuri, em cuja boca escancarada
cabia a metade de um monturo

Guardaram-na numa caixa de copaíba
de resinoso odor

Pelo caminho cruzaram
por um lobo-guará 
hipnotizando um teiú para almoço

Sucuri, na base dos bombeiros,
tomou banho de mangueira
Desempesteou-se das sujeiras humanas

O vento bandeou asseado

Enfim
devolveram a sucuri
a um ermo gordo de matas

A qualquer um que lá encontrava
a sucuri repetia:
- Saudades dos meus cabelos...